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O meu Avô

Entrou em casa e estremeceu...deu um passo em frente e caiu redonda no chão frio de mármore da entrada. As lágrimas corriam pela sua face como se vagueasse nua à chuva. Soluçava como se não houvesse amanhã...e não havia, para ela os dias nunca mais teriam o mesmo sentido.


Rastejou até à sala e envolveu-se nas almofadas cuidadosamente desarrumadas em frente à lareira, só queria chorar e desaparecer. Não tinha forças para o dia seguinte, não tinha coragem para enfrentar os próximos tempos, não sentia mais vontade de viver tamanha realidade tão injusta.

Inspirou fundo até à alma, olhou o crepitar do fogo, sentiu o lápis trémulo e expirou lentamente palavras para o papel...


Querido Avô,

Sempre disse que queria uma neta de cabelo e olhos claros...e eu nasci!

Eu, se pudesse escolher o Avô, queria-o exatamente como tive.

Sempre disse que ser Avô é ser Pai duas vezes, mas o Avô, foi mais do que isso:

... procurou-me sem ter que o chamar, ajudou-me sem ter que o pedir,

...na tormenta foi o meu abrigo, na fraqueza o meu colo,

...nunca disse não, mesmo tendo vontade de o fazer.

Um dia também quero ser assim!

...desculpe quando não estive e obrigada por ter estado sempre!

Ontem, quando lhe dei a mão, foi bom senti-lo pela derradeira vez e lembrar todos os momentos do passado, em que o Avô me deu a sua.

Hoje, estou tristemente alegre, são muitas as saudades, mas sei que agora abraçado à Avó tomam conta de mim.

Sou feliz e agradecida por ter vivido ao vosso lado e guardo-vos no meu coração. Levo os valores e os ensinamentos, fico com a vossa paz...


Vestiu o casaco preferido da Avó e ao som da valsa que dançava com o Avô, baixou as pálpebras e adormeceu de cansaço.